Um dos maiores entraves para que o produtor rural possa acessar as linhas de crédito dos programas de agricultura de baixo carbono é o desconhecimento de analistas bancários e de projetistas envolvidos no processo. Se por um lado existe incompreensão para facilitar a contratação dos recursos, do outro faltam profissionais aptos a roteirizar adequadamente projetos na área.
Para qualificar ambos e proporcionar maior agilidade no acesso dos produtores ao financiamento, acontece entre hoje (23.02) até sexta-feira (27.02), na sede do Sistema CNA/SENAR, em Brasília, o primeiro treinamento do Programa Capacita ABC. O encontro vai formar 44 multiplicadores para atuar em 13 Estados – Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Tocantins, Rio de Janeiro e Pernambuco.
O analista de projetos técnicos do Senar-MT, Garibaldi Junior, está representando a entidade no evento e acompanha dois instrutores credenciados à instituição na capacitação em Brasília. “A maior dificuldade é que os técnicos projetistas acabam colocando nas agencias financeiras, projetos sem muito embasamento técnico, o que dificulta a analise, haja visto que as tecnologias para o Projeto ABC são diferenciadas”, aponta Garibaldi.
“Neste treinamento será trabalhada a elaboração, a análise e o enquadramento de projetos agropecuários com tecnologias de ABC. São profissionais que já trabalham nessa área e que poderão retransmitir esses conhecimentos aonde houver demanda, tanto para analistas quanto para projetistas”, explica a coordenadora de projetos especiais do Departamento de Educação Profissional e Promoção Social (DEPPS), do Senar Central, Patrícia Fontes Machado.
A cerimônia de abertura contou com a presença de representantes das principais entidades integrantes do Capacita ABC: o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Embrapa e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban/INFI).
Segundo o secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Mapa, Caio Rocha, o Programa ABC é uma das prioridades da pasta e vem recebendo acréscimo de recursos subsidiados desde a sua criação (já foram mais de R$ 8 bilhões no total), mas é necessário que sejam superadas algumas dificuldades que travam a chegada do crédito aos produtores. “Não podemos ter os mesmos critérios de análise para um projeto de 10 e de 100 hectares. Precisamos de projetistas e analistas que trabalhem dentro de uma mesma metodologia e esse treinamento será fundamental para alcançarmos os resultados esperados”.
O chefe da Área Agropecuária e de Inclusão Social do BNDES, Carlos Alberto Vianna Costa, também destacou que a capacitação é importante para facilitar o entendimento entre os agentes envolvidos e, principalmente, resultar numa melhor expectativa de renda para os produtores. “A ideia é que esse modelo fique como um projeto de prateleira, que possa ser usado ao longo dos anos”.
Na opinião do diretor-executivo da Embrapa Transferência de Tecnologia, Waldyr Stumpf Junior, a formação de redes, como ocorreu no Capacita ABC, é essencial para que o Brasil consiga cumprir com o compromisso assumido mundialmente de reduzir a emissão de gases de efeito estufa via agricultura. “Construímos um conjunto de soluções tecnológicas para isso, agora precisamos passar conhecimento para toda a rede, a fim de que essas informações cheguem ao produtor rural, que é quem coloca a tecnologia lá no campo”.
O diretor-adjunto de Negócios da Febraban, Ademiro Vian, ressalta que esse tipo de treinamento é indispensável para que os recursos sejam liberados com maior rapidez dentro das instituições bancárias. “Hoje, temos, aproximadamente, 37 mil agências no Brasil inteiro. Precisamos rever algumas questões operacionais, mas levar conhecimento é muito importante. No final, fica o gerente do Banco e o produtor frente a frente, com o projetista do lado”.
Capacita ABC – A parceria vai desenvolver um programa de capacitação para projetistas e analistas financeiros na área de projetos de agricultura de baixa emissão de carbono – para atender o Programa ABC –, além de elaborar roteiros de projetos diferenciados para cada tecnologia e para diferentes regiões brasileiras.
Cada instituição parceira terá a sua atribuição específica no acordo. O SENAR vai selecionar os multiplicadores, participar da elaboração do material didático e desenvolver os treinamentos dos projetistas e dos analistas abordando os conteúdos de elaboração de projetos e das técnicas de ABC. A Embrapa ficará responsável pelo repasse de conhecimento sobre as tecnologias da agricultura de baixo carbono. A FEBRABAN e a ABDE vão demandar os treinamentos para seus projetistas e analistas. Ao MAPA caberá o apoio técnico e a divulgação das diretrizes do Plano ABC e o BNDES irá coordenar as ações do Termo de Cooperação.