A CASA DA FAMÍLIA RURAL

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No quintal de casa, apicultora de Chapada dos Guimarães transforma paixão por abelhas em trabalho de preservação

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Apicultora e professora Márcia Venâncio cria meliponicultura no jardim de casa

No quintal de uma casa em Chapada dos Guimarães, um vai e vem constante chama a atenção de quem mora na região. Ali, entre flores, árvores e caixas de madeira, centenas de abelhas se cruzam no ar todos os dias, numa perfeita sintonia silenciosa. Cada espécie reconhece exatamente a sua própria casinha, cenário que há mais de uma década se tornou parte da rotina da professora e apicultora Márcia Venâncio.

No Dia do Apicultor, celebrado neste 22 de maio, a história da educadora revela uma relação construída na convivência diária com espécies de abelhas sem ferrão, guiada pelo afeto, pela observação e um desejo único, a preservação de espécies pouco conhecidas.

Toda essa paixão começou com uma Jataí. A pequena abelha sem ferrão apareceu em um pé de aroeira na varanda da casa de Márcia. O enxame estava tão próximo da área da residência que ela temeu jogar água ou acabar prejudicando-a. Foi então que decidiu improvisar uma pequena caixa para abrigá-las.

“Eu fiquei com dó. Retirei e coloquei ela numa caixinha. Então passei a colocar iscas pra atrair enxames. Foi pela Jataí que veio o gosto pelas outras espécies”, relembra.

E dessa curiosidade nasceu o estudo. Sem acesso fácil a cursos ou referências sobre como criar abelhas sem ferrão, Márcia foi aprendendo sozinha, observando o comportamento das colmeias e pesquisando sobre meliponicultura, também conhecidas como melíponas.

Hoje, além das colmeias no jardim de casa, ela cria a abelha africanizada, com ferrão, em sua propriedade rural. Porém, é no quintal da sua casa em Chapada, que Márcia convive e cuida das abelhas quase como membros da família. Há Jataí, Borá, Marmelada e outras variedades nativas, cada uma com comportamento, cheiro e características próprias.

“Quando vejo um tumulto nas caixas aqui no jardim, eu sei identificar pelo cheiro qual espécie está ali. Eu conheço o cheiro da Marmelada e da Borá”, conta, enquanto manuseia cuidadosamente uma pequena caixa colmeia.

Cada colmeia de abelha sem ferrão tem um tamanho diferente, segundo apicultora

O cuidado exige observação constante. Márcia explica que cada espécie precisa de um tipo de caixa diferente, respeitando o tamanho do enxame e a necessidade de temperatura interna. Algumas precisam de mais espaço para expansão da rainha; outras sofrem no frio se a caixa estiver grande demais.

“Tudo isso eu fui aprendendo convivendo com elas, estudando, pesquisando, tentando aqui e ali”, diz.

Entre as espécies que mais marcaram sua trajetória está a rara Uruçu de Chão, considerada incomum na região. Determinada a provar que a espécie também existia em Chapada dos Guimarães, Márcia passou dias procurando ninhos em terrenos vazios, estudando formas de localização e até viajando para aprender técnicas de identificação.

“Eu queria mostrar que ela existia aqui também. Comecei a procurar em todo terreno vazio que encontrava”, lembra.

Atualmente, Márcia afirma que seu trabalho não é focado apenas na produção de mel de melíponas. A criação virou também um trabalho de preservação e a educadora lamenta que as abelhas nativas ainda sejam pouco valorizadas, apesar da importância fundamental para a polinização e para a produção de alimentos.

“Sem abelha não existe alimento. E as nossas abelhas nativas ainda são pouco conhecidas. Falta pesquisa, falta incentivo”, afirma.

Meliponicultura chama atenção de quem mora na região da Chapada dos Guimarães

Na cozinha da casa, os vidros guardam méis de diferentes espécies, cada um com sabor, aroma e textura próprios. O mel da Borá, por exemplo, chama atenção de chefs de cozinha e pode alcançar alto valor gastronômico pela complexidade do sabor.

Além do mel, ela produz sabonetes e outros derivados, como hidromel. Mas faz questão de dizer que o trabalho dificilmente gera lucro proporcional ao investimento. “É muito mais amor do que retorno financeiro”, finaliza.

A dedicação de Márcia também é reconhecida pela assistência técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar MT), por meio do Sindicato Rural de Chapada dos Guimarães. A técnica Rafaeli Gonçalves acompanha a produtora por meio da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), voltada à criação da abelha africanizada (Apis melífera).

“Nossa assistência é voltada à Apis melífera, mas a Márcia agrega muito para nós técnicos com as melíponas. É uma produtora com enorme potencial, muito dedicada. Mesmo trabalhando principalmente com abelhas sem ferrão no quintal de casa, ela nos ajuda a compreender mais sobre esse universo”, diz Rafaeli.

No sítio onde cria mais de 20 caixas de abelhas africanizadas da espécie Apis mellifera, Márcia recebe o acompanhamento da ATeG. Além da produção de mel, a apicultora já planeja ampliar a atividade com a extração do veneno da abelha, conhecido como apitoxina, utilizado em pesquisas e terapias alternativas voltadas ao tratamento de dores, inflamações e doenças articulares.

“É um sonho meu também, auxiliar a área farmacêutica e cosmética, e explorar essas outras possibilidades que agregam valor à produção apícola e abre novas possibilidades de renda no campo”, conta Márcia.