"Se deixamos de sonhar podemos viver, mas deixamos de existir. Eu quero existir através da música". Foi com esta frase de Charles Chaplin que o pianista e maestro João Carlos Martins, de forma simples e direta disse que sua história não é de superação, mas sim de teimosia. Mesmo com todas as dificuldades e barreiras, ele, aos 75 anos, toca piano, rege e ainda ensina.
Se preparando para 23ª cirurgia, ele conta que teve que abandonar a música diversas vezes em função de vários acidentes e incidentes em sua vida. Mesmo sentido dores, João Carlos ainda toca e se diz realizado quando se senta ao piano. Na tarde de sexta-feira (15.04), ele emocionou mais de 400 pessoas que participavam do Parceria Sindical.
Considerado o maior interprete de Johann Sebastian Bach, João Carlos diz que a música explica que Deus existe e aproxima povos, nações e segmentos da sociedade. "Tenho certeza que o setor rural pode se unir a qualquer outro através da música. E posso garantir que este é um dos segmentos que mais tem dado esperança para os brasileiros", enfatiza.
A história de João Carlos começa com o pai português chamado José que apesar de trabalhar numa gráfica era fascinado pelo piano. Todos os dias, após o expediente parava em frente a uma escola para assistir as aulas. Ganhou a oportunidade de aprender a tocar gratuitamente. Faltando três dias para começar a realizar o sonho, a prensa da gráfica onde trabalhava lhe decepou-lhe o polegar e o sonho acabou. Mesmo assim, José não desistiu, transferiu a paixão pelo piano para os filhos. Já rico e emigrado em São Paulo, teve dois filhos, ambos pianistas reconhecidos.
João Carlos começou seus estudos ainda menino e sua carreira foi rápida. Aos 11 anos já estudava piano seis horas por dia. Teve aulas com os professores mais famosos não só do Brasil, como de várias outras partes do mundo. Seus primeiros concertos trouxeram a atenção de toda a crítica musical mundial. Foi escolhido no Festival Casals, dentre inúmeros candidatos das três Américas para dar o Recital Prêmio em Washington. Aos 20 anos estreou no Carnegie Hall, tocou com as maiores orquestras norte americanas e gravou a obra de Bach completa para o piano. Foi João Carlos Martins que inaugurou o Glenn Gould Memorial em Toronto.
Este é o resumo de uma história de sucesso, mas o pianista e maestro viu seu sonho morrer por diversas vezes. Em 1965, em um jogo treino da Portuguesa realizado no Central Park, Nova Iorque, ele foi convidado para integrar o time, mas teve uma queda, que perfurou seu braço direito na altura do cotovelo, atingindo o nervo ulnar, provocando atrofia em três dedos, obrigando-o a parar de tocar por um ano. Mesmo assim, tocou com dificuldade, até os 30 anos. Voltou ao Brasil e tornou-se empresário de música e boxe por sete anos.
Sem alternativa teve que parar de tocar. Mas não desistiu. Voltou aos palcos, com muita dificuldade, e depois de longos períodos de fisioterapia, retornou foi aclamado pelo público e recebeu criticas positivas. Entretanto desenvolveu Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (Dort), que mais uma vez fez com que ele deixasse os palcos. Nesta época resolveu se dedicar a fase de empresário na área política.
Porém João Carlos nunca desistiu da música. Ele superou as dores, o tempo dedicado a fisioterapia e buscou adaptações para continuar tocando. Entre 1979 a 1985, mesmo com todas as sequelas gravou boa parte da obra de Bach. Conseguiu recuperar o público, e gravar praticamente toda a obra de Bach. Ele conta que muitas vezes ao terminar o concerto, o teclado ficava manchado de sangue.
Mas a vida de superação ainda lhe reservava muitos desafios. Em 20 de maio de 1995, em um assalto, na cidade de Sofia na Bulgaria, João Carlos foi golpeado na cabeça com uma barra de ferro, provocando uma sequela neurológica que comprometeu o membro superior direito. Para se recuperar teve que fazer trabalhos de reprogramação cerebral para conseguir movimentar a mão direita. Ele conseguiu voltar a tocar com as duas mãos, entretanto voltou a apresentar problemas no braço direito, e também na fala e teve que ser submetido a um novo procedimento cirúrgico. Mesmo com tudo isso não desistiu e gravou seu último álbum com as duas mãos.
Em 2001, grava o álbum Só para Mão Esquerda, escrito por Paul Wittgenstein que perdeu o membro direito na Primeira Guerra Mundial. A intenção era de gravar oito álbuns apenas para a mão esquerda.
Entretanto, com o passar dos anos desenvolveu na mão esquerda uma doença chamada contratura de Dupuytren, que provocada, além da própria contratura, o espessamento da fascia palmar. Fora submetido de novo a um procedimento cirúrgico, que não impediu que perdesse os movimentos da mão esquerda, inviabilizando tocar piano. Novamente teve que parar de tocar, e dessa vez acreditou seria para sempre.
Segundo ele, em 2003 estava sem rumo e já sabia que não poderia mais tocar com a mão esquerda. Nesta fase, ele conta que teve um sonho. "Sonhei que estava tocando piano com Eleazar de Carvalho e ele me dizia: vem pra ca que vou que te ensinar a reger". Incapaz de segurar a batura ou virar as páginas das partituras dos concertos, João Carlos se dedica a um trabalho minucioso de memorizar nota por nota. Com isso começou a desenvolver a distonia no membro superior esquerdo, que produz movimentos involuntários, e o impede de reger.
Em maio de 2004, esteve em Londres regendo a English Chamber Orchestra, uma das maiores orquestras de câmara do mundo, numa gravação dos seis Concertos Branndenburguenses de Bach e, já em dezembro, realizou a gravação das Quatro Suítes Orquestrais de Bach com a Bachiana Chamber Orchestra. Os dois primeiros CDs foram lançados internacionalmente.
Em fevereiro de 2004 o crítico inglês descreve na International Piano Magazine um episódio pitoresco que aconteceu na vida de João Carlos Martins, quando após um recital no Carnegie Hall, no final dos anos 60, recebeu uma recomendação de Salvador Dali: "Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach, algum dia vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita". O crítico termina dizendo que João Carlos Martins não teve que esperar tanto tempo.
Em 2012 ele se submeteu a uma cirurgia no cérebro para a implantação de dois eletrodos do cérebro, com um estimulador eletrônico no peito, para recuperar os movimentos da mão esquerda, atrofiada. Já que estava com a distonia bem avançada, atingindo todo o braço e não abria a mão há 10 anos. Logo após a apresentação no Parceria Sindical ele conta que se prepara para a 23ª cirurgia.
Esta é uma pequena parte da história de João Carlos Martins. Mesmo assim, apesar de todas as dificuldades e dores que ele sente, ainda continua tocando e regendo. Além de todos estes desafios enfrentados e diversos outros que aconteceram ao longo da sua vida, João Carlos realiza na Faculdade de Música da Amazônia (FAAM), um programa de introdução à música com jovens carentes.
Na apresentação da última sexta-feira (15.04), João Carlos Martins contou com a parceria do violinista da Orquestra Bachiana Filarmônica do Sesi de São Paulo, Renato Yokota.
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