22,15% são o que representa o PIB do Agronegócio brasileiro, o setor da economia mais importante do país. O saldo da balança comercial (exportação / importação) só é positivo hoje pelo grande faturamento advindo das exportações agrícolas e pela baixa necessidade de importação do setor. Em 2012, enquanto o saldo da balança do agronegócio chegou a US$ 79,4 bilhões, o saldo total do Brasil atingiu US$ 19,4 bi. Exceções feitas a 2005 e 2006, em todos os anos subsequentes a 2000 o país teria um saldo negativo se não fosse pelo setor. Daí vem a importância de investir na formação de gestores e produtores para alavancar o crescimento da economia.
Com este objetivo, a Federação de Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato), lançou em 2013 o projeto Futuros Produtores do Brasil, reunindo 30 jovens filhos de agricultores e empresários do ramo para despertar neles a paixão pela agropecuária e motivá-los a dar continuidade aos negócios da família. "Como estão os herdeiros de propriedades ou negócios rurais do Brasil? Quais rumos esses jovens estão tomando e quais os impactos de suas escolhas sobre os negócios da família?", indaga o presidente da Famato, Rui Prado, indicando as diretrizes do projeto. A sucessão familiar é uma passagem importante para o agronegócio, já que, segundo o Censo Agropecuário de 2010, dos 4,5 milhões dos estabelecimentos rurais com proprietário no Brasil, 1,5 milhão, ou 33%, são adquiridas através de herança.
O estudante de agronomia João Paulo Varnier tem apenas 18 anos, mas já encara o projeto como uma necessidade de dar sequência à conquista do trabalho dos pais. "Não só eu, como todos os futuros produtores do Brasil têm em mente que tudo o que nossos pais construíram é nós que vamos dar sequência. Estamos preparados para tocar os negócios e mostrar que somos capazes", confia Varnier. A família do estudante cultiva grãos (soja e milho) na cidade de Lucas do Rio Verde, MT (330 km da capital Cuiabá), que está entre as oito cidades do estado com maior PIB agrícola, gerando R$ 405 milhões.
A prova da importância em capacitar os mais jovens vem, inclusive, da quebra de paradigmas em relação ao setor produtivo. A estudante Natália Becker de Oliveira, 16, ainda cursa o ensino médio, mas já escolheu sua primeira opção de curso para o ensino superior: agronomia. "Antes do projeto eu não tinha muito interesse no segmento e não via o agronegócio como grande oportunidade. Hoje minha visão mudou radicalmente. Chega a ser engraçado comparar meus discursos antigos com os atuais", revela Becker. A partir do projeto Futuros Produtores do Brasil, a estudante conta que passou a enxergar a agropecuária como um grande negócio, principalmente pela tendência de crescimento econômico.
Quanto às dificuldades por ser uma futura gestora mulher em uma profissão historicamente ocupada por homens, Natália não se preocupa. "Uma característica que se destaca nas mulheres é o capricho com tudo que é feito. Esse cuidado que vem das mulheres estende-se por todas as atividades realizadas, como a própria gestão da propriedade rural", sentencia a jovem estudante. Em Tapurah (388 km de Cuiabá), a família de Natália trabalha no ramo da produção de grãos (soja, milho, sorgo, milheto e crotalária distribuídos em dois mil hectares) e na criação de ovinos. Mais recentemente, a cria, recria e engorda de bovinos também passaram a fazer parte do sistema produtivo. "É uma forma de poupança para as crises da lavoura", explica a estudante, já mostrando conhecimento adquirido junto ao projeto.
Para a médica veterinária, doutora em zootecnia e pós-doutoranda em administração Soraya Tanure, a busca por esse conhecimento é o principal ponto para melhorar a gestão do agronegócio. "Talvez mais do que o conhecimento técnico, que já está bem desenvolvido no Brasil, há necessidade de se buscar conhecimento em administração do negócio e do sistema de produção", destaca Tanure. Sua linha de pesquisa abrange a aplicação de modelos de dinâmicas de sistemas à realidade da produção agrícola, uma ferramenta que, segundo sua projeção, será imprescindível para tampar os principais gargalos da produção e evitar um estrangulamento da atividade.
As novas gerações e os gestores que já estão na atividade que buscam atualizações deverão, cada vez mais, conhecer seu negócio e os índices de produtividade para entender seu posicionamento no mercado e as consequências das tomadas de decisões com base nas reações do sistema. Histórico de números como a taxa de desmame anual, custo com alimentação, sanidade e melhoramento genético animal e vegetal farão a diferença não apenas entre o lucro e o prejuízo dentro de uma safra, mas para um planejamento mais abrangente da atividade.
Estimando um cenário dentro de um futuro próximo, estabelecendo um limite para o crescimento da indústria e de serviços, o agronegócio continuará sendo o grande propulsor da economia brasileira, especialmente pela vocação nacional para produção em escala, que deverá continuar gerando divisas através da exportação. Mas o caminho para o Brasil tirar o máximo proveito de sua produção primária passará pela mudança de mentalidade desses novos gestores. "Vejo necessidade de mudança na forma como se gerenciam os negócios e sistemas de produção, na adaptação à realidade de cada região e mercado. Isso vai ocorrer pela necessidade de sobrevivência e de sucesso no negócio", aposta a pesquisadora.
Futuros Produtores do Brasil
O projeto contou ao todo com quatro encontros em dias de campo, sendo o último deles no estado de São Paulo. Os participantes visitam nesta quinta-feira, 5, o porto de Santos-SP, um dos principais pontos de escoamento da safra brasileira para o exterior, e nesta sexta-feira, 6, vão à BM&F Bovespa na capital paulista para entender a formação de preços de commodities no mercado futuro. O retorno para a capital mato-grossense está previsto para o sábado, dia 7 de setembro.
Antes disso, os estudantes já haviam feito visitas à Fazenda Filadélfia, em Campo Verde, onde aprenderam aspectos práticos da produção de grãos, algodão e piscultura; também foram à Estância Capão do Angico, em Poconé, participar de um dia de campo sobre pecuária de corte; e por fim foram à Fazenda Gamada, em Nova Canaã do Norte, onde aprender sobre integração lavoura-pecuária-floresta e sucessão familiar, respectivamente.
A ideia é que haja uma próxima edição do projeto em 2014. Os jovens interessados devem entrar em contato com o sindicato rural de sua cidade. A participação é gratuita. Veja mais detalhes sobre o projeto aqui.