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02/03/2026

Estradeiro da Famato percorre 5 mil km, mapeia gargalos e aponta soluções logísticas para o Arco Norte e Araguaia

Fonte: Eduardo Cardoso
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Famato defende investimentos em infraestrutura, ordenamento do fluxo em Miritituba e novas rotas ferroviárias

A primeira edição do Estradeiro BR-163 — Do Campo ao Porto, realizada pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), foi concluída neste domingo (1º de março) após uma missão técnica voltada a identificar gargalos e apontar soluções para a logística do escoamento de grãos de Mato Grosso. Em nove dias, a comitiva percorreu cerca de 5 mil quilômetros, atravessou Mato Grosso, Pará, Tocantins e Goiás e reuniu representantes de 21 sindicatos rurais, sendo 19 presidentes, além da diretoria da entidade.

O roteiro acompanhou o caminho da soja até os terminais de transbordo no distrito de Miritituba (PA) e o porto de Santarém (PA), no eixo do Tapajós/Arco Norte. No retorno, a comitiva passou pela BR-158, corredor logístico do Vale do Araguaia, e discutiu alternativas para reduzir custos e viabilizar novas rotas e modais.

Ao longo do percurso, o grupo de produtores registrou contrastes entre trechos em evolução e pontos críticos. Em Mato Grosso, a avaliação é de que a duplicação de segmentos estratégicos da BR-163 é uma necessidade que avança diante do volume crescente de caminhões no pico da safra. No Pará, a comitiva apontou agravamento do cenário, com trechos sem pavimentação, precariedade de rodovias estaduais e gargalos de segurança viária.

Fila em Miritituba chegou a quase 30 km. Foto: Lucas Nunes

O ponto mais sensível da expedição foi identificado em Miritituba, onde o Estradeiro registrou um estrangulamento logístico. O grupo saiu da região do KM 30 e constatou mais de 25 km de fila de caminhões carregados com soja do norte de Mato Grosso, aguardando triagem e descarregamento. No local, caminhoneiros relataram falta de apoio e desorganização. “Aqui a gente está jogado. Não tem banheiro e a gente passa dificuldade”, disse o caminhoneiro Luigi Brischiliari, ao descrever o impacto físico e psicológico da espera.

Para o presidente da Famato, Vilmondes Tomain, o gargalo não pode ser normalizado e exige presença efetiva do poder público e de órgãos federais. “Ministério da Agricultura e Ministério dos Transportes têm que vir aqui ver de perto essa demanda para trazer soluções”, afirmou, ao defender articulação entre os governos de Mato Grosso e Pará e a sociedade organizada. “A estrutura para receber a produção é de excelente qualidade, mas a infraestrutura para chegar até aqui é insuficiente para o pico da safra”, completou.

A comitiva também reconheceu como ponto positivo a eficiência do transbordo em Miritituba, com a carga seguindo do caminhão diretamente para as barcaças. No entanto, o sistema sofre limitações, especialmente na seca, quando há restrições de navegação no Tapajós e redução de capacidade das barcaças, encarecendo a operação e pressionando o frete, com impacto ao produtor.

Em Miritituba, comitiva navegou pelo rio Tapajós para conhecer os portos instalados no local

Nesse contexto, a Famato defende, no curto e médio prazo, alinhamento político entre os estados de Mato Grosso e Pará para desafogar o acesso e a triagem em Miritituba e a busca de recursos federais para obras e intervenções estruturais, diante das limitações financeiras dos estados.

Outra possibilidade discutida pela comitiva é ampliar a avaliação de rotas para levar pelo menos parte da produção de soja diretamente a Santarém, reduzindo a dependência do transbordo para barcaças. A Famato pondera, porém, que o acesso rodoviário até Santarém enfrenta trechos críticos na região de Rurópolis, com aproximadamente 100 km de segmentos não pavimentados e pontes de madeira, que se tornam mais restritivos no período chuvoso e elevam o risco de interrupções e acidentes.

O caminho que liga o distrito de Miritituba até Santarém tem terra e pontes de madeira. O trecho de asfalta precisa de manutenção. Foto: Lucas Nunes

Armazenagem

Para a Famato, parte do problema logístico está ligada ao déficit de armazenagem estadual. Mato Grosso teria capacidade para estocar cerca de 50% do que produz, obrigando o escoamento imediato no pico da colheita. A entidade defende linhas de financiamento atrativas para que produtores, especialmente médios e pequenos, construam unidades de estocagem nas propriedades, reduzindo o pico de caminhões e aumentando a previsibilidade.

Ferrovias e novas rotas

No retorno para Cuiabá, a comitiva reforçou a discussão sobre alternativas ferroviárias, com destaque para a Ferrovia Norte–Sul como opção para absorver parte do volume do Leste de Mato Grosso, com o ramal em implantação ligando Mara Rosa (GO) a Água Boa (MT) e conexão ao Porto do Itaqui, em São Luís (MA).

Para o presidente do Sindicato Rural de Confresa, Bira Capuzzo, o Estradeiro ampliou a visão logística dos participantes: “Além das rotas tradicionais, Mato Grosso e o país precisam investir em novas ferrovias que atendam regiões com grande potencial agrícola, como o Vale do Araguaia”.

A Famato vai consolidar as evidências levantadas, os gargalos, riscos, trechos críticos e relatos de quem vive a estrada, e para encaminhar um relatório técnico e sustentar uma agenda propositiva voltada a investimentos em infraestrutura, apoio aos caminhoneiros e ampliação da armazenagem como estratégia central para reduzir o pico sazonal e dar previsibilidade ao escoamento da safra mato-grossense.

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